Pantanal Turismo

O Pantanal é um país

Maior do que muitos países europeus, essa planície periodicamente alagada se rende aos caprichos da natureza. Os animais selvagens e a vegetação exótica fazem desse ecossistema um reduto de rara beleza. Quem procura entrar em contato com a natureza sem abrir mão do conforto só poderia escolher um destino, o Refúgio Ecológico Caiman, um hotel-fazenda no meio do nada.

Essa grande extensão de terra selvagem no Centro-Oeste do Brasil parece ter vida própria. A região tem cidades, campos, grandes proprietários de terra, sem-terra preocupados em garantir um pedaço de chão e até mesmo uma capital (não-oficial), Corumbá. O complexo do Pantanal tem 186,5 mil hectares e representa a maior planície de água doce alagada do mundo. A área que compreende o Pantanal é tão grande que daria para encaixar quatro países europeus dentro: Holanda, Bélgica, Suíça e Espanha.

A maiores cidades são Cáceres que conta com um dos maiores Rodeios do Mato Grosso e região, Corumbá no Mato Grosso do Sul que conta com uma agenda de shows bem recheada, atraindo para esses eventos toda a população da região. Outras cidades que se destacam são: Aquidauana (MS), Porto Murtinho (MS), Barão de Melgaço (MT) e Miranda (MS).

Seu poder de atração sobre os turistas do país e do exterior acontece devido ao exotismo e diversidade da vida natural.

Tanta riqueza fez com que o Pantanal recebesse dois títulos da UNESCO em apenas um mês: o de Patrimônio Natural da Humanidade e o de Reserva da Biosfera . A proposta brasileira foi aprovada pelo Comitê do Patrimônio Mundial, reunido em Cairns, na Austrália. Isso significa que essas áreas devem ser preservadas a qualquer custo e cuja perda significa o empobrecimento do planeta como um todo. Os títulos vão ajudar muito a aumentar o ecoturismo além de atrair recursos para a região. Este mês o governo federal assina com o BID, Banco Interamericano de Desenvolvimento, um contrato de financiamento para o Programa Pantanal, com investimentos da ordem de US$ 400 milhões que serão liberados em oito anos. O objetivo do programa é promover ações de desenvolvimento sustentável da bacia do Alto Paraguai.

Foto de Rodeio no Mato Grosso do Sul, Região do Pantanal

No sul do Pantanal uma antiga fazenda de criação de gado foi transformada em refúgio ecológico e é para lá que os visitantes se dirigem quando querem associar o contato com o meio ambiente ao conforto de um hotel no meio do nada. Para se chegar ao Refúgio Ecológico Caiman, o hotel-fazenda mais confortável do Pantanal, é preciso ir até Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul. A empresa aérea Tam oferece vôos diários saindo das principais capitais do país. São duas horas de viagem, mas ainda há muito chão pela frente. E chão é o que mais se vê da janela do avião ao sobrevoar essa planície periodicamente alagável composta por diversos ecossistemas. São características da floresta amazônica, serrado, chaco boliviano e floresta semi-decidua (que perde folhas) misturadas. Um espetáculo para os olhos. Em terra firme o turista enfrenta mais quatro horas de viagem por trechos de estrada poeirentos, com pequenos botecos nas beiras da estrada, mas que já mostram o verde que forma a imensa colcha de retalhos vista lá de cima. O calor é de mais de 30o C em novembro. Os turistas estrangeiros sofrem com a temperatura.

Nos últimos três anos metade dos hóspedes do Refúgio Ecológico Caimam são estrangeiros. Dois deles seguem entusiasmados na van que vai buscá-los no aeroporto.

Barrol e Peter Bailey, ingleses que vivem ao sul de Londres, fazem parte da organização mundialmente conhecida “Bird Watchers” (Observadores de Pássaros). Depois que Peter, um pesquisador da indústria farmacêutica, se aposentou, o casal decidiu viajar pelos cantos mais incríveis do planeta em busca de um prazer efêmero: observar o maior número de pássaros possível em seu habitat natural.

Pela primeira vez no Brasil, eles já passaram por Parati e Rio de Janeiro e se preparavam com entusiasmo para ver as belezas do Pantanal antes de seguir para a Amazônia. Barrol reclamava da falta de estrutura da Inglaterra para organizar viagens rumo a destinos naturais como o Pantanal. “O pior problema é que em Londres não há agências que preparem o programa para você, e quando tentamos fazer as reservas diretamente os funcionários de algumas pousadas não falavam Inglês. Isso foi muito difícil”. Mas os problemas não desanimaram o casal que acabou chegando de mala e cuia sem falar uma palavra de português. E lá estavam eles, prontos para se embasbacar com a diversidade de pássaros do Brasil.

Nos passeios organizados pelo hotel o clima é de excitação. Todos querem ver os bichos do Pantanal. Os mais comuns são a sucuri amarela, que chega a quatro metros, a ema, jacarés, o urubu-rei (em perigo de extinção), suruguá, corrupião, capivara, tatu, tamanduá mirim, tamanduá bandeira, anta, cervo do pantanal, bugio e lobinho.

Empoleirados em um caminhão, do tipo que transporta gado pela estrada, um grupo de turistas observa as aves que se encontram pelo caminho. Ao menor ruído elas fogem assustadas. É preciso ter cuidado e manter o silêncio. Mas o esforço é recompensador. O gavião fumaça é o primeiro a dar o ar de sua graça. Essa espécie espera o ataque de uma cobra para bater nela com as asas e comê-la. Os gaviões fumaça também perseguem os bichos que fogem do fogo. Depois é a vez do socó-boi, um pássaro que se aproveita da cor do pescoço para se esconder dos predadores. O gavião-belo justifica o nome que tem, com a cara branca e o corpo marrom. Entre os mamíferos, se destaca o assustado veado campeiro que logo foge a presença de estranhos. A espécie não corre perigo no Pantanal somando 20 mil indivíduos, mas há alguns anos o veado campeiro era morto para a retirada do seu couro. A febre aftosa também reduziu o número deles no Pantanal.

De repente alguém avisa, lá vem um casal de araras-azuis. Os ingleses vão ao delírio. Afinal, estavam realizando o principal objetivo de sua viagem, ver as aves do Pantanal. “nós queríamos ver a paisagem alagada mas gostamos muito das araras-azuis”, afirma Barrol.

Antes de preparar as malas e imaginar que vai entrar em um “pântano” o turista deve saber exatamente o que vai encontrar. A paisagem no Pantanal muda de acordo com cada ciclo da natureza. Saiba mais.

A professora Solange Cardoso Rabelo foi vítima da falta de informação. Por serem passageiros freqüentes, ela e o marido ganharam a viagem como uma cortesia da companhia aérea Tam. O casal recebeu o convite em casa e logo se animou para conhecer uma realidade totalmente diferente da agitação da grande São Paulo. Mas a decepção aconteceu pela falta de mamíferos e terrenos alagados: “Eu achava que a fauna seria mais diversificada. Esperava ver tucanos, araras coloridas, aves a uma distância menor além de mais flores”, afirma a professora. Mesmo assim, Solange afirma que outros momentos da viagem compensaram. “É uma região muito diferente do que estou acostumada, com esforço dá para ver muita coisa”.

A diversidade entre os visitantes do Pantanal é marcante. Metade brasileiros e metade de estrangeiros. Mas o espírito pantaneiro logo recebe e afaga a todos. Em um dia juntos eles já dão risada e brincam sobre as diferenças. Esse pedaço de paraíso é assim, une as pessoas através do espetáculo da natureza.

O guia e biólogo do Refúgio Caiman, Leonardo Fleck, explica: “a paisagem do Pantanal é única, mas as pessoas são ainda mais incríveis. No Pantanal todos se tratam de uma maneira alegre, sem competições e ainda convivem com a natureza. As pessoas te tratam como amigo”.

Pelo visto isso é real porque quando a gente vai embora sente falta mesmo é dessa gente danada de boa!

Um refúgio de portas abertas para a natureza

São cinco horas da manhã e o sol já está nascendo. Hora de todo mundo cair fora da cama na Caiman. Nem os mais preguiçosos escapam, afinal é impossível ignorar o canto alto e estridente do aracuã, pássaro típico da região.

A mesa farta da pousada avisa que o dia vai ser longo e é bom se preparar como um “peão” para as caminhadas que se seguem. A fazenda tem 53 mil hectares e recebeu o nome de “Caiman” em alusão a um tipo de jacaré. A Estância Caiman abriga três projetos que se completam: ecoturismo, pecuária extensiva de corte e pesquisa e preservação do meio ambiente.

O complexo inclui quatro pousadas mas o hóspede não pode escolher em qual delas vai ficar. Isso depende da ocupação. A sede é a antiga casa dos proprietários da fazenda, e funciona como uma casa de família, oferecendo uma atmosfera intimista. Construída em estilo ibero-americano, a pousada foi adaptada para abrigar 25 hóspedes em 11 apartamentos. Oferece sala de estar, TV, som, bar e escritório central. Uma curiosidade: o ex-presidente Jânio Quadros costumava se hospedar no apartamento número 11. Na sede fica a última chance do hóspede entrar em contato com a civilização. As demais pousadas não tem telefone nem televisão nos quartos. O isolamento faz parte do charme da estância.

Praticamente ao lado da sede fica a pousada Piúva com seis quartos. Devido a proximidade, a pousada funciona em conjunto com a infra-estrutura da sede. A pousada Baiazinha se localiza a 9 quilômetros da sede e tem 6 quartos. Fica a beira de uma baía onde se pode ver jacarés e pássaros aquáticos. Tem a forma de uma ave com as asas abertas. A Cordilheira tem o clima mais aconchegante de todas com a varanda e portas teladas que permite a passagem da brisa fresca da tarde sem o incômodo dos terríveis mosquitos. Ela fica sobre palafitas que impedem a invasão de animais e da água das cheias. O nome é devido a sua localização próxima a uma floresta em forma de castelo. Lá pode-se observar mais mamíferos como porcos, quatis e cervos. A cozinha internacional conta com uma cozinheira para cada pousada. Entre as delícias da culinária local estão a sopa de piranha, muqueca de pintado, pacu frito e recheado, bobó de frango, churrasco, macarrão tropeiro, arroz carreteiro e caribel. O número de turistas é pequeno mas o serviço impecável.

“O ecoturismo está ligado a pequenos grupos para oferecer um atendimento mais personalizado e não causar impacto ao meio-ambiente”, afirma o biólogo e guia da Caiman, Leonardo Fleck.

Os visitantes tem que seguir regras rígidas como não coletar espécies animais ou vegetais, não alimentar ou perseguir animais e não saírem sozinhos por trilhas longe da pousada. Só na região da pousada são 500 espécies de bichos entre aves, répteis e mamíferos. Os guias são os responsáveis pelo grupo. Dois guias com rádios vão em todos os passeios, um local e um guia caimaner. O guia local conhece a região e as trilhas e o caimaner dá as informações mais técnicas. Eles só andam pelas trilhas que têm mais segurança.

Todos os guias da Caiman são bilíngües com formação universitária. O biólogo Leonardo Fleck, 23 anos, faz parte do grupo que recebe os visitantes oferecendo as mais específicas informações sobre a fauna e flora da região. “O Pantanal é o lugar nas Américas onde se pode observar o maior número de espécies. O mais legal é ver esses animais na sua vida cotidiana, no seu ambiente natural, sem influência do homem”, afirma o caimaner.

Os animais encontrados no Pantanal não são exclusivos da região e podem ser encontrados em outros Estados, mas o Pantanal funciona com um refúgio ecológico onde eles conseguem sobreviver.

A brasileira Daisy de Brito e o irmão João moram na Austrália há 26 anos e voltaram para o Brasil para conhecer a realidade do país que deixaram ainda pequenos, além de aproveitar para criar uma identidade com a cultura brasileira. “Queria ver a vida selvagem dos animais e da floresta. Aqui a vegetação é muito verde, o Pantanal é verde”.

Quem tem medo do que “tanto verde” pode esconder não tem motivo de preocupação. As temidas cobras servem de alimento para outros animais e torna-se difícil vê-las. “O Pantanal é super seguro, ataques de onças e pumas são raros. A gente nunca teve problemas com hóspedes”, afirma Leonardo Fleck. Mas o que ele considera seguro pode significar o limite do medo para qualquer mortal. “O momento mais emocionante que passei aqui na Caiman foi quando fiquei entre dois pumas enquanto caminhava por uma trilha. Eles ficavam fazendo sons um para o outro e isso é muito raro”, lembra o caimaner.

De fato, o risco máximo que o visitante corre é ser surpreendido por uma das doenças da região. Já aconteceram alguns casos isolados de febre amarela, por isso é importante tomar a vacina pelo menos dez dias antes da viagem. Já a malária foi erradicada do Estado. De qualquer maneira é sempre bom evitar os mosquitos. No Pantanal há milhares deles, e o ideal é não esquecer o repelente.

Passeios da Caiman

O Refúgio Ecológico Caiman realiza pelo menos dois passeios diários para que os visitantes possam conhecer a maior parte da estância. Faça chuva ou faça sol, os turistas são levados para descobrir os encantos da região a cavalo, de barco ou de Zebrão (o caminhão que percorre com facilidade as estradas de terra). A noite acontece a focagem de animais de hábito noturno, que é quando o guia ilumina os animais com uma lanterna.

“Gostei muito de ver os jacarés, que foram os primeiros bichos diferentes que eu tinha visto, além da cavalgada na chuva”, afirma a professora Solange Rabelo.

Quem prefere mais emoção pode escolher participar de um dos passeios opcionais. Os hóspedes seguem de barco pelo Rio Aquidauana onde podem avistar lontras e a ariranha. Um outro passeio interessante oferece a experiência de se tornar um peão por dois dias. Os hóspedes acompanham uma comitiva de gado com 200 cabeças por quatro horas até chegar ao retiro. Dormem em uma estrutura circular telada, como uma redoma. A noite é feito um churrasco de chão ao som do violeiro. Os peões pantaneiros aproveitam para contar seus “casos” e essa é “uma oportunidade incrível de conhecer a vida do peão”, afirma Leonardo Fleck.

De manhã todos acordam com o nascer do sol para tomar o “quebra-torto” (café da manhã) reforçado. Essa refeição inclui o arroz carreteiro que é para os peões agüentarem a viagem. Só uma observação: para os turistas é preparado café da manhã tradicional. Para finalizar, é possível experimentar o mate tereté, um chá típico da região que parece com o chimarrão, só que é gelado.

Dicas para turismo no pantanal

  • Jamais, mas jamais mesmo, esqueça de levar repelente. Isso poderia estragar um ótimo passeio pelas trilhas repletas de mosquitos.
  • O sol de 32o C no verão pode causar insolação. Leve um chapéu ou boné para se proteger do sol diretamente na cabeça. No inverno, leve casacos, luvas e até gorro, já que a temperatura pode cair rapidamente.
  • Apesar do calor, calça comprida e bota são ideais para os passeios a cavalo e pelas trilhas da região.

Projeto arara-azul

A arara-azul é uma das aves mais belas e exóticas do Pantanal mas atualmente está em perigo de extinção e tem apoio da WWF Brasil. Ao todo são cinco mil indivíduos na natureza, três mil só no Pantanal. Há alguns anos a ave era muito capturada para o comércio de animais domésticos já que seu valor oscilava entre 10 e 30 mil dólares em mercados da Europa ou Estados Unidos. Os próprios índios da região também a capturavam para comer e usar as penas na confecção de ornamentos.

O Refúgio Ecológico Caiman abriga a base do Projeto Arara Azul, inaugurado em novembro de 1998 e idealizado pela bióloga Neiva Guedes da Uniderp, Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal. O projeto busca novos ninhos, coleta dados sobre a biologia da arara e envolve o monitoramento por rádio de seus movimentos através de rádio colar. Os rádios foram colocados em nove araras, mas hoje só se consegue localizar três delas. As araras-azuis também podem ser encontradas na região amazônica, na faixa entre o Estados do Maranhão, Piauí e Bahia, além do sul do Pantanal.

Só com o estudo se conseguiu descobrir, por exemplo, que a arara-azul se alimenta da castanha acuri e da bocaiuva. A arara dá a luz a um filhote a cada dois anos e vive em média 30 anos. Para facilitar a reprodução das aves, os pesquisadores construíram ninhos artificiais em caixas de madeira aumentando a disponibilidade de locais para o acasalamento. A presença das araras é bastante comum no Refúgio Ecológico Caiman.

Desde a sua criação o projeto recebeu biólogos de vários países e alunos de universidades brasileiras.

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